Como disse Gabriel Delfim após a classificação: “Não foi apenas uma classificação. Foi uma daquelas noites em que o futebol parece escolher um personagem para contar a sua história.” E o futebol escolheu. Escolheu justamente um goleiro que sequer começou a temporada como protagonista.
Na noite desta quarta (16/9), pelas quartas de final da Copa Sul-Americana, o Atlético recebeu o Santos precisando buscar o resultado. Era uma partida de alta tensão, daquelas em que o erro pesa toneladas e a redenção cabe em um único lance. E foi exatamente isso que o jogo entregou.
Barba mandou a campo o que tinha de melhor à disposição, com algumas adaptações importantes. Alan Franco voltou a cumprir uma função que conhece bem, atuando na lateral direita, enquanto Reinier ganhou a vaga de Cassierra no ataque. Uma mudança que parece refletir o momento vivido pelos dois jogadores: de um lado a confiança crescente do jovem atacante, do outro a fase difícil do camisa 9 atleticano.
O Atlético começou melhor. Tinha controle territorial, pressionava a saída santista e parecia mais próximo de abrir o placar. Mas futebol nem sempre recompensa quem joga melhor. Às vezes, castiga.
E Lyanco conheceu esse lado cruel do esporte. O zagueiro viveu uma noite para esquecer. Primeiro, cometeu a falta que originou o gol santista. Na sequência da cobrança, acabou desviando de cabeça contra o próprio patrimônio. Mais tarde, falhou novamente ao errar o tempo de bola em um carrinho, permitindo que Gabriel Bontempo encontrasse Gabigol livre para ampliar.
Dois erros decisivos. Duas pancadas que poderiam derrubar qualquer equipe.
Mas este Atlético se recusou a cair.
E muito disso passou pelos pés de Reinier. O atacante foi, talvez, a sua melhor versão com a camisa atleticana. Marcou duas vezes em finalizações de primeiro toque, ambas exigindo técnica, tempo de bola e enorme capacidade de execução.
Gols de quem joga com confiança. Gols de quem entendeu o tamanho da oportunidade que recebeu.
Ao seu lado, Fred também merece destaque. São raros os jogadores capazes de combinar criatividade e entrega da maneira que ele faz. Além das duas assistências, foi mais uma vez incansável na recomposição defensiva, liderando a intensidade que o Atlético precisou para se manter vivo.
Quando a eliminação já parecia rondar a Arena MRV, surgiu Cuello.
Aos 47 minutos do segundo tempo, o atacante apareceu na pequena área para marcar de cabeça e incendiar o estádio. Um gol que valeu mais do que o empate na partida. Valeu a sobrevivência. Valeu o direito de continuar sonhando.
O 4 a 4 no placar agregado levou a decisão para os pênaltis.
E foi ali que o roteiro encontrou o seu protagonista.
Gabigol foi o primeiro a caminhar até a marca da cal. Um dos personagens centrais da rivalidade construída entre os dois confrontos, ao lado de Neymar, carregava também o peso de iniciar a série de cobranças para o Santos.
Parou em Delfim.
Mas não foi apenas uma defesa. Foi o início de uma atuação histórica.
O goleiro atleticano ainda defenderia outras duas cobranças, sendo vencido apenas por Bontempo, em uma batida que ainda tocou o travessão antes de entrar.
Do lado alvinegro, somente Fred desperdiçou.
O restante converteu as suas cobranças e garantiu a classificação atleticana.
Naturalmente, vieram as provocações de volta. Faz parte do futebol. Principalmente depois de uma eliminatória cercada por declarações, gestos e provocações que envolveram Neymar, Gabigol e todo o ambiente santista.
Mas a grande história da noite está acima disso.
O futebol tem uma estranha capacidade de criar heróis improváveis.
Everson, dono absoluto da posição, ficou fora. E foi justamente essa ausência que abriu espaço para Gabriel Delfim viver uma noite que talvez marque para sempre a sua carreira. Há partidas que dão três pontos. Há partidas que classificam. E existem aquelas que mudam a forma como um jogador é lembrado.
Para Delfim, esta foi uma delas.
O Atlético avançou de fase, é verdade. Mas mais do que isso, viu nascer um personagem daqueles que o torcedor gosta de guardar na memória. Porque títulos constroem histórias. Mas são noites como essa que transformam jogadores em lendas de uma campanha.
E, por algumas horas, o futebol escolheu Gabriel Delfim para ser o autor principal dessa história.










