Ouro Preto: buscando o diálogo, Bocaina de Baixo promete resistir aos novos hidrômetros da Saneouro
Vereador Kuruzu propôs resistência por meio do diálogo - Foto: Radar Geral
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Cerca de 100 moradores da Bocaina de Baixo, localidade de Ouro Preto (MG), participaram de uma reunião, na noite de sexta (23/1), em que ficou decidido que a comunidade não quer a futura instalação de hidrômetros a ser feita pela Saneouro (empresa que tem a concessão de distribuição de água e esgoto no município ouro-pretano). Segundo a Associação de Moradores da Bocaina (AMB), a comunidade tem cerca de 400 pessoas. Ou seja, a maior parte dos adultos compareceu.

Contrariando a recomendação do Ministério Público (MP), os moradores querem cuidar de seus próprios problemas com relação à distribuição da água na localidade.

A bem da verdade, a Lei 14.026/2020 (Novo Marco Legal do Saneamento) transformou o “direito” em uma meta obrigatória. Por lei, governos e as empresas de água devem garantir que 99% da população tenha água potável nas torneiras até o final de 2033.

Até 2022, o serviço em Ouro Preto era prestado por uma autarquia municipal (Semae) sem a medição por hidrômetros na maioria das residências, o que gerava percepção de “água gratuita” ou taxa fixa mínima para muitos moradores.

A realidade hoje é que a Saneouro tem sido alvo de diversas polêmicas, incluindo protestos populares, disputas judiciais sobre cobranças e críticas à qualidade do serviço, com debates sobre a remunicipalização do serviço.

Soma-se a isso questionamentos sobre a fiscalização, feita pela Prefeitura, dos serviços prestados pela Saneouro.

Existe, de fato, um sentimento no município de aversão à concessionária. Nas redes sociais, por exemplo, são quase inexistentes os que defendem os serviços da empresa.    

Na reunião, Bocaina de Baixo disse que pretende “resistir”. Entretanto, a comunidade (pacífica e ordeira) sabe que a saída mais viável é por meio do diálogo e, portanto, do “convencimento”.   

“Se quiser cortar a água, pode cortar. Se eu aceitar a instalação, vou ficar endividado. E no fim da história, vou ficar sem água e com dívida”, disse o morador José Fernandes (de 77 anos) — senhor criado na Bocaina, que resume o sentimento da comunidade.

Participaram da reunião lideranças da Associação de Moradores local e os vereadores Kuruzu (PT) e Lílian França (PP) — ambos da base do prefeito. Eles concederam entrevista em vídeo ao Radar Geral.

OUTRO LADO

Em nota, a Saneouro informou que “cumprindo uma recomendação do Ministério Público do Estado de Minas Gerais, conforme Procedimento Administrativo de Acompanhamento de Políticas Públicas de 17 de novembro de 2025, iniciará neste mês de janeiro de 2026 a instalação de hidrômetros em Ouro Preto, nas ligações de água que ainda não possuem o aparelho. O objetivo é garantir a medição do consumo de água nas localidades que ainda não possuem esse controle, devido a dificuldades enfrentadas nos primeiros anos do contrato de concessão”.

A nota continua: “No documento, o promotor cita que ‘o saneamento básico, em especial o abastecimento de água potável, constitui serviço público essencial, cuja adequada prestação é dever do Município e responsabilidade da concessionária’. Ainda segundo a recomendação, a Saneouro, com apoio da Prefeitura de Ouro Preto, da Guarda Civil Municipal e da Polícia Militar, deve instalar hidrômetros em todos os imóveis dos distritos de Antônio Pereira, Rodrigo Silva, Santo Antônio do Salto e dos subdistritos de Bocaina e Mota”.

“A Saneouro ressalta que a medida representa justiça social para todos os usuários do sistema de água, já que atualmente mais de 90% dos imóveis do município já possuem hidrômetros e pagam pelo consumo efetivamente registrado. A instalação será gratuita para os clientes. Os hidrômetros registram o volume de água consumido por cada imóvel ao longo do mês. Com base nesses dados, são emitidas as faturas de cobrança. Além disso, a hidrometração incentiva o uso consciente da água, evitando desperdícios. A estrutura tarifária adotada em Ouro Preto também estimula o consumo racional: quem consome menos paga um valor mais baixo pelo metro cúbico de água. As famílias em situação de vulnerabilidade, inscritas no CadÚnico, poderão procurar a Saneouro para ter direito à tarifa social”, finalizou.

VEJA VÍDEO:

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