A Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), de Itabirito (MG), fica no Marzagão e, como toda Apac, é local onde julgados cumprem penas.
Não se engane, não há regalia para esses condenados, mas também não há humilhação.
O se que tem, de fato, é oportunidade de o recuperando (como o condenado é chamado) voltar a viver em sociedade.

Na Apac, acordar-se às 6h. Existem obrigações e compromissos até as 22h, de domingo a domingo (evidentemente, com momentos e lazer e descanso).
O que não faltam ao recuperando são deveres – de assumir funções, de estudar (pelo menos até o Ensino Médio). E oportunidades: de ter momentos de leituras (para diminuição da pena), de expressar sua fé, de aprender uma profissão, de cursar uma faculdade (à distância). Afinal, “mente vazia, oficina do diabo”.

Há também várias obrigações: de organizar (perfeitamente) as roupas, de arrumar a cama, de manter banheiros e todo o prédio impecavelmente limpos.



Uma das regras: qualquer falta grave de um único recuperando tem como consequência a punição de todos (que sofrem restrições).
Os números, de fato, impressionam: no sistema Apac, chega-se a 91% dos condenados recuperados (porcentagem da Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados). Já nos presídios tradicionais, 15%. “Ninguém é irrecuperável”, acreditava Mário Ottoboni, saudoso fundador do sistema Apac.
Trata-se de um local que itabiritenses, ouro-pretanos, marianeses etc. deveriam conhecer (melhor).

A Apac de Itabirito tem como entusiasta, apoiador e fundador o juiz Antônio Francisco Gonçalves – um dos dois representantes máximos do Poder Judiciário de Itabirito.

A associação conta com trabalho voluntário de integrantes do Instituto Inspirar José Farid Rahme e dos Vicentinos.
Toda a direção é voluntária e formada por membros de uma destas duas entidades.
“Aqui tem pessoas que cometeram todos os tipos de crimes. São 83 recuperandos no semiaberto e fechado. Nossa capacidade é de 84. Nesse sistema, em que nunca há superlotação, só não é aceito membro de facção”, disse Rogério Gonçalves Lima Júnior, diretor-presidente da Apac de Itabirito e membro do Inspirar.

No caso, o diretor Rogério é funcionário do Grupo Farid e parte do seu trabalho foi cedido para execer a função na diretoria da Apac.
A Apac ainda tem 15 funcionários bancados pelo Governo de Minas Gerais.
Não há segurança armada. “Nossa arma é a palavra”, disse Rogério.

Não é comum fugas no sistema Apac. Todavia, quem comete esse erro, quando capturado, é levado para uma penitenciária do sistema comum (sem chance de retorno à Apac).

Hoje a associação de Itabirito precisa de voluntários. “Pessoas que possam dividir seus talentos com os recuperando, ensinando-os algo. Precisamos de mulheres para revistas íntimas etc.”, disse o diretor.
E por falar em revista íntima, na Apac de Itabirito, ela não é vexatória. “Verificam-se bolsas e é usado o detector de metais.”

Celulares são proibidos. “Entrou um telefone uma vez durante minha gestão e oito recuperandos foram transferidos”, disse o presidente.
Na Apac, são respeitados os 12 elementos, “que incluem valorização humana, participação da comunidade e recuperando ajudando recuperando”, explicou.

PRODUÇÃO
Em Itabirito, a entidade tem parceria com a Escola Estadual Henrique Michel (que disponibiliza professores), com a Nutrito (que doa produtos), com o Senai (que proporciona cursos profissionalizantes), com empresa de materiais de irrigação (recuperandos montam dispositivos usados nos produtos vendidos por esta firma), com uma empresa de móveis (foi montada na Apac uma oficina que trabalha com madeira) etc., etc., etc.

Será feita ainda uma parceria com uma mecânica de moto de Itabirito.
E muito em breve, funcionará uma fábrica de blocos de concreto. Para isso, uma máquina foi adquirida por meio de verba pecuniária (cedida pelo Judiciário) e subvenção da Prefeitura. E para calçar a área onde funcionará a fábrica, a Vale doou bloquetes.


No local, existe ainda uma cozinha de padaria muito bem montada que, em breve (só faltando as licenças), irá ceder pães para empresas. Hoje esta dependência serve somente à própria instituição (fazendo pães para os recuperandos).

Há ainda uma bela horta, galinhas e porcos.
Tudo sob a responsabilidade dos recuperandos. São eles que assumem as obrigações.
É regra. Quem não aceita “entrar no ritmo” é transferido para o presídio tradicional.

“O dinheiro arrecadado pelo trabalho do recuperando é para manter a própria Apac. No futuro, quando estivermos estabilizados, vamos estudar uma forma de o recuperando receber pagamento”, disse Rogério.
Para se ter uma ideia, o Radar Geral esteve na Apac, na segunda (24/8), e foi recebido por um recuperando. Foi ele que abriu o portão.

EM TEMPO: a Apac de Itabirito conta com dentista, psicólogo e médico (cedido pela Prefeitura), que quando necessário encaminha o recuperando para um especialista.












