Três pontos na conta? Sim.
Um bocado de coisa para reclamar? Sim.
O torcedor do Cruzeiro saiu do Mineirão com motivos para as duas coisas na última sexta-feira (23/10).
O 1 a 0 sobre o Remo, pela 32ª rodada do Campeonato Brasileiro, veio com um gol de Fabrício Bruno e levou o time aos 54 pontos. Um resultado importante na busca pela vaga direta na Libertadores. Até aí, ótimo.
O problema foi o futebol que acompanhou a vitória.
Que jogo amarrado.
O Cruzeiro errou muitos passes, demorou para construir e deu ao adversário tempo para se organizar. A bola chegava, o jogador pensava, olhava, segurava. Quando resolvia o que fazer, o espaço já tinha fechado.
A impressão era de uma equipe esperando que a diferença técnica resolvesse tudo.
Só que qualidade precisa de movimento.
Quem está sem a bola tem que oferecer opção. Quem recebe precisa dar sequência. Sem isso, até o passe simples vira um problema.
Não dá para medir vontade olhando da arquibancada. Mas dá para cobrar o que aparece no campo: aproximação, disputa, reação depois de perder a bola. E o Cruzeiro entregou pouco nesse pacote.
Os números de distância percorrida nos ajudam nessa discussão.
Segundo os dados do Sofascore, o Remo correu quase 92 quilômetros, enquanto o Cruzeiro ficou na casa dos 70.
Uma diferença que chama atenção também na comparação com outras apresentações celestes no Mineirão: contra São Paulo e Athletico-PR, o time ultrapassou os 90 quilômetros; diante do Flamengo, passou dos 100.
Correr mais não significa jogar melhor. Mas, numa partida em que faltaram aproximação, movimento e reação, essa diferença merece uma explicação.
A qualidade do Cruzeiro era maior.
Dentro de campo, precisava vir acompanhada de mais participação.
O Remo tem seus méritos, sim, por competir no Mineirão.
Mas o Cruzeiro também não pode tratar como normal tamanha dificuldade diante de um adversário que ocupa a vice-lanterna da competição. A diferença entre os elencos era maior do que o futebol mostrou.
No primeiro tempo, Otávio precisou trabalhar, e a trave também ajudou.
No segundo, o Cruzeiro pouco fez para deixar o torcedor tranquilo. O placar estava a favor. O jogo continuava aberto demais para uma equipe que parecia sem disposição para acelerá-lo.
Fabrício Bruno resolveu pelo alto o que o time não conseguia resolver com a bola no chão.
Mas não podemos encobrir as dificuldades coletivas.
Houve quem sustentasse a equipe? Sim. Jonathan Jesus fez uma grande partida. Romero se desdobrou. Zé Lucas apareceu bem para o jogo.
São atuações que merecem reconhecimento justamente porque, ao redor, havia muita gente abaixo do esperado.
E aí precisamos falar de Gerson.
Entre os jogadores do meio-campo, é quem mais me incomoda neste momento. Pela lentidão, pela pouca influência e, principalmente, pela distância entre o que pode jogar e o que está entregando.
A cobrança acompanha o tamanho da expectativa.
Um jogador dessa qualidade precisa participar mais, assumir mais, fazer o time andar.
William voltou a deixar a desejar.
E, diante de tanta dificuldade para dar ritmo à equipe, sigo sem entender por que Lucas Silva não recebe mais oportunidades.
Com o clássico pela frente, aparece o argumento da experiência. É válido. Um jogo desse tamanho exige cabeça no lugar. Mas experiência não pode virar cadeira cativa.
Se existem possibilidades melhores, por exemplo, no meio de campo, por que o currículo do companheiro deve pesar mais do que o rendimento? A escalação precisa responder ao campo. Inclusive quando isso exige tirar um nome importante.
A responsabilidade também chega ao banco.
Artur Jorge reconheceu que o Cruzeiro esteve abaixo do esperado.
Acertou nessa avaliação. Mas, na minha leitura, passou do ponto no incômodo com a cobrança durante a coletiva.
O resultado merecia ser valorizado; a atuação, questionada. As duas coisas cabiam na mesma entrevista.
Treinador de time grande precisa explicar por que sua equipe produziu tão pouco. Perguntar sobre isso faz parte do trabalho da imprensa.
Reclamar faz parte do direito de quem acompanha, paga ingresso e espera mais.Depois de eliminações seguidas, a torcida quer uma resposta que apareça no jeito de jogar.
A vaga direta na Libertadores é um objetivo importante demais para o Cruzeiro atravessar essa reta final dependendo de um gol salvador e do apito final.
Há qualidade nesse elenco para oferecer mais.
Mas ela precisa aparecer no passe, na movimentação, na disputa pela bola.
A vitória sobre o Remo merece ser comemorada. A atuação precisa ser corrigida. Confundir as duas coisas seria desperdiçar a oportunidade de ajustar o time antes do clássico.
Contra o Atlético, no dia 29, o Cruzeiro terá de disputar cada espaço com a disposição que faltou no Mineirão.
Não pode esperar o rival impor o ritmo para, só então, perceber que precisa jogar.
Os três pontos de sexta ficaram na tabela. As dúvidas vão junto para o clássico. Cabe ao Cruzeiro fazer com que a torcida encontre em campo as respostas que não vieram na coletiva de Artur Jorge.














