O Coelho caiu. E não foi por falta de aviso!
William Bigode, atacante do América - Foto: Mourão Panda
Compartilhe:

Tem queda que dói. Tem queda que revolta. E tem queda que faz o torcedor olhar para o escudo na camisa e perguntar: “Como é que deixaram chegar a esse ponto?”

É esse o sentimento que fica diante do tombo do América para a Série C do Campeonato Brasileiro.

E olha que estamos falando de um clube que, não faz tanto tempo assim, era apontado como exemplo de organização no futebol mineiro. Um América que incomodava os grandes, disputava competições importantes e fazia o torcedor acreditar que tinha chegado a hora de ocupar outro lugar no futebol brasileiro.

Mas futebol, meus amigos, não aceita viver de lembrança.

A camisa pode ter história, o estádio pode guardar grandes momentos, a torcida pode carregar uma paixão que não cabe no peito. Só que, quando a bola rola, passado não ganha dividida, não marca gol e muito menos garante permanência.

E aí vem a pergunta que não quer calar: como um clube que parecia ter encontrado o seu caminho consegue se perder desse jeito?

Porque uma queda dessas não começa no último jogo. Não nasce naquele gol perdido, naquela defesa que falhou ou naquela bola que teimou em não entrar.

Ela começa muito antes.

Começa quando os sinais aparecem e ninguém parece disposto a enxergá-los. Quando o torcedor reclama e é tratado como exagerado. Quando a esperança vai sendo substituída pela desconfiança, rodada após rodada.

E o mais triste é que o torcedor percebe.

Ah, percebe!

Quem acompanha futebol de verdade conhece aquele aperto no peito antes mesmo de a bola rolar. É quando você olha para o time e, lá no fundo, já não sabe de onde vai sair uma vitória.

O torcedor continua indo ao estádio, vestindo a camisa, discutindo escalação, fazendo promessa. Mas a confiança? Essa vai embora aos poucos.

E quando a queda finalmente chega, não existe surpresa que consiga esconder a frustração.

O América não é um clube qualquer. Tem história, tem tradição, tem identidade. E justamente por isso uma queda para a Série C não pode ser tratada como mais um capítulo ruim.

É um baita sinal de alerta.

E aqui cabe uma coisa que muita gente no futebol parece esquecer: o torcedor não exige que seu time seja campeão todo ano. Ele quer, antes de tudo, reconhecer dentro de campo um time que respeite a camisa que veste.

Quer ver entrega. Quer sentir orgulho. Quer terminar uma partida sabendo que, mesmo na derrota, ninguém deixou de lutar.

Porque perder faz parte do futebol. Agora, se acostumar com a derrota é outra história.

E talvez seja essa a ferida mais profunda de um rebaixamento: a sensação de que aquilo que parecia impensável foi se tornando normal.

A Série C não apaga a história do América. Mas também não pode virar apenas mais uma página a ser esquecida na primeira sequência de vitórias.

O Coelho precisa olhar para o espelho. E não adianta procurar um culpado conveniente para resolver uma história que certamente é maior do que um jogador, um treinador ou uma tarde ruim.

No futebol, reconstruir é muito mais difícil do que prometer. E a torcida americana já não precisa de alguém dizendo que vai dar tudo certo. Precisa enxergar o que vai ser feito para que tanta coisa pare de dar errado.

Quem segurou a esperança até o último minuto merece respostas. Merece respeito. E merece voltar ao estádio com vontade de ver o próximo jogo.

O primeiro passo para levantar é admitir o tamanho do tombo. Sem desculpa pronta, sem empurrar a responsabilidade para o próximo e sem achar que a tradição vai ganhar jogo sozinha.

O Coelho caiu. Agora, a resposta precisa vir de quem tem a obrigação de colocá-lo de pé.

Porque a torcida pode até ajudar a carregar o clube de volta. Mas não dá para pedir que ela carregue, junto, os mesmos erros que o derrubaram.

Jogo contra o Fortaleza decretou matematicamente o rebaixamento – Foto: Mourão Panda
Compartilhe: