Juiz Doutor Antônio deixará a Comarca de Itabirito
Dr. Antônio recebeu o site Radar Geral nesta quarta (6/5) — Foto: Romeu Arcanjo
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A partir de meados deste mês, Antônio Francisco Gonçalves (conhecido como Doutor Antônio) deixará a Comarca de Itabirito (MG). O juiz será promovido para a entrância especial e assumirá o cargo em uma cidade com mais de 150 mil habitantes — no caso, Belo Horizonte.

Dr. Antônio chegou a Itabirito em 2006. Na época, o Fórum contava com somente um juiz, ou seja, estava na 1ª entrância. Em 2013, ao ser elevado à 2ª entrância, o Fórum passou a contar também com a Doutora Vânia da Conceição Pinto Borges.

Em entrevista de mais de uma hora ao Radar Geral, Dr. Antônio (sempre receptivo com a imprensa) contou a boa-nova e falou de assuntos que lhe são caros, como a falência da Usina Queiroz Junior e a dívida bilionária contraída pelos donos — caso que será tratado com detalhes por este site o mais breve possível.

LUTA PARA VENCER

A trajetória do juiz Antônio é marcada por superações pessoais e profissionais.

De origem humilde, nascido no Vale do Vale do Jequitinhonha, foi o 2º de 10 filhos. Durante a infância e juventude, trabalhou como ajudante de pedreiro com seu pai (um homem de personalidade rígida) para auxiliar no sustento da família.

Réu é condenado a 66 anos por tentativas de feminicídio e de estupro em Acuruí — presidindo a sessão Dr. Antônio — Foto: Radar Geral

No ano 2000, época em que prestava concurso para a magistratura, foi diagnosticado com câncer no estômago. Após a cirurgia, contraiu uma infecção hospitalar severa que o obrigou a realizar as provas do concurso em isolamento absoluto dentro do hospital, sob fiscalização rigorosa. Apenas dois meses após tomar posse como juiz, ele perdeu o pai para a mesma doença que havia enfrentado.

ITABIRITO E APAC

Um dos grandes entusiastas da Apac de Itabirito (modelo humanizado, mas rigoroso, de cumprimento de pena), Dr. Antônio acredita que um condenado possa, de fato, ser reintegrado à sociedade — desde que o Estado dê condições para isso e que haja interesse real do preso.

Quando chegou a Itabirito, sua prioridade foi desafogar os trabalhos da Comarca: em apenas um mês, foram 2.500 decisões. Em 2013, os 11 mil processos da época puderam ser divididos com a juíza recém-chegada.

 Em menção ao Dia da Consciência Negra, Antônio Francisco foi homenageado em 2024 na Câmatra de Itabirito e disse: “A cor (negra) só nos dá força para mostrar que somos capazes”

“A sensação ao deixar Itabirito é de dever cumprido. A Corregedoria orienta que processos não fiquem parados por mais de 100 dias; na minha secretaria, estabeleci o prazo máximo de 40 dias. Todos os processos sob minha responsabilidade serão sentenciados até o dia 15”, disse o juiz, reforçando seu propósito de “zerar as sentenças”.

Dr. Antônio acatou decisão do Tribunal do Júri no “Caso Paraíba” — Foto: Radar Geral

Nos últimos seis meses, foram cerca de 100 sentenças por mês. Perguntado se isso seria um “prenúncio” de sua saída, ele respondeu que não, dando a entender que seu ritmo de trabalho visa tentar resgatar a imagem do Judiciário perante os desgastes atuais — desgastes estes que não ocorrem exatamente nos tribunais de 1ª instância.

Dr. Antônio (em 2º plano) na Apac de Itabirito em 2025 — Foto: Radar Geral
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